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Existem muitas faces por trás da conquista de um título. Para o São Paulo, a principal delas resumia-se em como montar uma equipe competitiva com um investimento inferior aos seus adversários. Em maio desse ano, Cleo Prado, Diretora de Futebol Feminino, afirmou em uma entrevista que a equipe estava entre o sexto e o sétimo orçamento do País. Cinco meses depois, levantaram a taça do Campeonato Brasileiro.

“A gente trabalha sobre uma filosofia da melhoria contínua. Cada ano melhora um pouco o projeto. Mas sempre entendemos que precisava investir em pessoas, infraestrutura, processos, e em uma equipe coesa, um elenco que a gente conseguisse trocar peças e não perdesse e o modelo de jogo. Muito estudo de mercado, alinhamento entre staff, comissão, diretoria, e atletas com perfil de São Paulo, de muita entrega e muita raça, com qualidade técnica e essa mescla entre as meninas mais novas com as experientes”, afirma o técnico Thiago Viana ao Estadão.

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Para o treinador campeão brasileiro, a preparação dessa equipe acontece desde 2023, quando subiu das categorias de base para comandar o profissional, e compreendeu a situação orçamentária que teria pela frente e o que poderia ser feito dentro da realidade do projeto.

“Eu cheguei e tinha espaço para contratar de duas a três atletas em valores mais baixos. Foi o que a gente fez. A partir de 2024, já começou a dar uma cara melhor e tivemos o resultado rápido que foi a final do Brasileiro. E desde então a gente vem nesse trabalho pensando bastante no coletivo. A gente sabe que muitas vezes a gente não vai ter financeiramente um valor para investir em nomes muito badalados. Mas sempre vão ter boas jogadoras, que unidas vão formar um bom coletivo.”

Thiago Viana conquista seu segundo título com o profissional após história na base feminina. Foto: Rebeca Reis / Staff Images Woman / CBF

A fala do treinador reflete no elenco. Destaque da partida de volta por um pênalti defendido, a goleira Carlinha chegou ao São Paulo em 2019 - ano da reativação do projeto - e é a jogadora com mais partidas na história do feminino no clube, com 229 jogos no total.

Ao lado de Carlinha, 14 atletas formadas nas categorias de base do clube compõem o profissional: Ana Beatriz, Carol Gil - recentemente convocada para a seleção brasileira -, Clara, Cris, Eluiza, Iseppe, Julia P., J. Vaini, Kesia Sena, L. Calazans, Isa, Ravena, Vitorinha e Vi Amaral.

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Além de formar jogadoras para a equipe principal, a base são-paulina tem retrospecto vitorioso e conta, inclusive, com a presença de Thiago Viana nessa história. Antes de chegar ao profissional, o treinador passou pelo sub-16, sub-17, sub-18 e sub-20 e levantou 11 títulos no total.

“A gente tem muito orgulho do projeto como um todo, não são todas as equipes que tem sub-15, 17, 20, algumas tem até mais condições financeiras e não tem, então o trabalho ele é amplo. Ele é além do trabalho para o clube, um trabalho para a modalidade.”

São Paulo empata com o Corinthians e conquista inédito Brasileirão feminino num MorumBis lotado Foto: Rebeca Reis / Staff Images Woman / CBF

Ao unir atletas que possuíam uma trajetória no clube, com jovens da base e contratações pontuais e experientes, o São Paulo finalizou a primeira fase do Brasileirão no topo da tabela, com 41 pontos conquistados, com 13 vitórias - sendo sete seguidas - dois empates e duas derrotas, o que se consolidou como a melhor campanha da equipe desde a reativação.

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Nas quartas de final, venceu o Grêmio. Pelas semifinais, levou a melhor sobre o Flamengo e avançou para a decisão. Na primeira partida da final, quebrou um tabu e tornou-se a primeira equipe a vencer o Corinthians na Neo Química Arena. Já no Morumbis, contou com o apoio de sua torcida para levantar a taça.

Em casa, além do título, o São Paulo adquiriu o recorde de público entre clubes femininos na América do Sul - 49.450 pessoas estiveram presentes para a partida. “Foi um roteiro de filme que eu acho que ninguém tinha escrito”, diz Viana.

Recepção da torcida do São Paulo na final do Brasileiro Feminino. Foto: Rebeca Reis / Staff Images Woman / CBF

A meio-campista Duda Serrana está no clube desde 2022 e relembra que a equipe sempre teve pessoas para apoiar, mesmo que em pouca quantidade, e que se disponibilizavam para assisti-las, mesmo que longe. Mas reconhece que a mobilização feita para a final foi histórica.

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“A gente sabe que não é tão natural que isso aconteça, ver o futebol feminino conquistando esse passo, abrindo essa porta, por mais que que seja uma vez ou outra, é muito especial. Isso mostra que a gente está no caminho certo”, conta a jogadora.
Serrana ainda revela a sensação de ter o apoio da torcida durante a partida.
“É muito surreal a forma com que naturalmente você é levada pela atmosfera do lugar. Os gritos, a torcida, além de estar ali famílias e os torcedores que já nos acompanhavam, ver a torcida do São Paulo em si, como se fosse uma noite de Libertadores do masculino, ali em prol da gente, é espetacular.”
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Acompanhamento psicológico foi tratado como crucial para o título
Fora das quatro linhas, um trabalho que, por vezes, não é visto, foi destacado pelas jogadoras. A psicóloga Nathany Cavalcante chegou ao clube há cinco meses, mas já teve impacto na rotina das atletas.
São Paulo feminino tem acompanhamento com psicóloga. Foto: Aline Fiuza / São Paulo FC
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“A gente tem conhecimentos para poder discutir e debater, porém ter os especialistas é um ganho muito grande. Hoje eu não vejo mais um trabalho de alto nível sendo feito sem uma contribuição de uma psicóloga em relação à parte mental”, afirma Viana sobre a contratação da psicóloga.
A alagoana vive um acompanhamento diário com a equipe, desde triagem nutricional e física até questionários sobre sono, ciclo menstrual e humor.
“Eu fico dentro de campo com as atletas. Participo do aquecimento, do trabalho que é proposto pela comissão. Então eu vou observar aquela atleta que está um pouco mais ansiosa, que está mais isolada, que não está conversando muito, que gosta de conversar e não está conversando. E eu fico sempre observando, aí chego, sento do lado dela, porque o psicólogo não tem consultório do esporte, então qualquer lugar se torna o consultório dele”, conta.
São Paulo em dinâmica com a psicóloga. Foto: Aline Fiuza / São Paulo FC
A contratação foi quase um pedido das próprias jogadoras, o que fez a chegada ao clube ser muito leve.
“O importante é quando o grupo quer, então elas queriam uma profissional de psicologia e trouxeram para mim já o primeiro passo. O outro é conquistar a confiança. A atleta precisa entender que o que ela conversa comigo é uma conversa nossa. A gente prioriza muito na psicologia o sigilo. Então, a gente tem que quebrar essa ideia de o psicólogo ser fuxiqueiro”.
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Após a final, diversas atletas afirmaram em entrevistas que a vinda da psicóloga mudou uma chave na equipe. Entusiasmada, ela conta como foi receber esses comentários positivos.
“Ali que você vê o reconhecimento do seu trabalho. Quando você está tão envolvida, você não consegue ver bem o tanto que você está atingindo. Eu vejo como uma valorização muito grande do trabalho e da profissão.”
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