A enxaqueca abdominal (do inglês, AM: "abdominal migraine") é uma síndrome recorrente que se inicia, por norma, na infância. Os sintomas comuns incluem episódios de dor abdominal central, acompanhada de náuseas ou vómitos, que duram desde algumas horas até vários dias. Em alguns casos, as enxaquecas podem ocorrer numa idade mais avançada. Entre os episódios, as pessoas geralmente sentem-se bem e desenvolvem-se com normalidade. Os antecedentes familiares de enxaquecas são frequentes. Os episódios podem ser desencadeados por fadiga ou stresse. Considera-se que o mecanismo subjacente é semelhante ao das enxaquecas comuns, com vários fatores genéticos envolvidos. O diagnóstico é determinado com base nos sintomas, após a exclusão de outras causas possíveis. É um tipo de perturbação funcional. Os episódios podem ser aliviados através de medicamentos para as dores, como o ibuprofeno ou o paracetamol (acetaminofeno), e repouso. Podem também ser tomados medicamentos para as náuseas. Medicamentos para a enxaqueca como o sumatriptano ou a dihidroergotamina são alternativas viáveis. A prevenção pode incluir evitar fatores desencadeantes e medicamentos como o pizotifeno, bloqueadores dos canais de cálcio, anticonvulsivantes ou betabloqueadores. Cerca de 60 % das crianças recuperam da doença antes de atingirem a idade adulta. A enxaqueca abdominal afeta cerca de 1 % a 9 % das crianças. Costuma surgir por volta dos 7 anos de idade, com uma incidência ligeiramente maior entre as raparigas. A doença foi descrita pela primeira vez em 1921 por Buchanan.
Sinais e sintomas As características principais da enxaqueca abdominal consistem numa dor abdominal na linha média do abdómen, acompanhada por crises paroxísticas recorrentes de dor abdominal aguda que duram em média 17 horas. Tem-se verificado que estas crises podem durar entre duas a setenta e duas horas. Apesar de também já ter sido definida como difusa e cólica, a dor é geralmente descrita como surda e periumbilical. 91 % das pessoas apresentam perda de apetite, 73 % a 91 % apresentam náuseas, 35 % a 50 % apresentam vómitos e 93 % a 100 % dos doentes apresentam palidez. A crise termina geralmente de forma abrupta. A frequência média anual dos ataques é de 14. Embora possam ocorrer sintomas prodrómicos não específicos antes de desencadeadas, as crises de enxaqueca abdominal costumam ser esporádicas e podem incluir alterações comportamentais e de humor, perda de apetite, rubor, diarreia e auras, as quais incluem dormência, fala arrastada, formigueiro nas extremidades distais e luzes cintilantes. Os episódios podem espaçar-se de semanas a meses, intervalo durante o qual os doentes não costumam apresentar qualquer sintoma.
Causas A enxaqueca abdominal tem sido associada a alterações específicas no eixo intestino-cérebro, disfunção vascular, alterações no sistema nervoso central e fatores genéticos.
Fatores de risco A fisiopatologia da enxaqueca abdominal pode envolver fatores psicológicos. Abuso e acontecimentos stressantes são, por exemplo, dois fatores de risco para a dor abdominal recorrente. A ansiedade e a depressão ocorrem com frequência semelhante em pessoas que apresentam dor abdominal funcional em comparação com outras causas de dor abdominal.
Gatilhos Os fatores que desencadeiam as crises são vários e comuns. Fatores de stresse relacionados com a vida profissional e familiar, padrões de sono irregulares, períodos prolongados de jejum e privação de alimentos, desidratação, exercício físico, viagens, alimentos ricos em aminas, aromas alimentares, corantes, glutamato monossódico (do inglês MSG, "monosodium glutamate") e luzes cintilantes são alguns exemplos.
Genética Uma componente hereditária pode estar relacionada com uma forte incidência familiar, especialmente no caso de mutações que afetam o transporte da membrana celular (canalopatias).
Mecanismo Apesar de a fisiopatologia dos distúrbios gastrointestinais funcionais (do inglês FGIDs, "functional gastrointestinal disorders") ter diversos contribuintes possíveis, a etiologia da enxaqueca abdominal ainda é desconhecida. Considera-se que as crises resultem de descargas elétricas anormais provenientes do hipotálamo em direção ao córtex e ao sistema nervoso autónomo ou de variações na velocidade do fluxo sanguíneo da artéria cerebral. Em doentes com FGIDs, parece existir uma disfunção no eixo cérebro-intestino. Muitos episódios de distúrbios gastrointestinais funcionais na infância foram associados a doenças mitocondriais, disfunção do eixo hipotálamo-hipófise e mutações genéticas; contudo, essas associações não foram estudadas em doentes diagnosticados com enxaqueca abdominal.
Diagnóstico O diagnóstico envolve descartar outras causas. Sintomas que possam suscitar preocupação devem ser tratados, tais como a presença visível ou oculta de sangue nas fezes, disfagia, hematémese, vómitos biliosos, febre, alterações no padrão de crescimento e perda de peso. Caso estes sintomas ocorram, poderão ser realizados exames adicionais. Os critérios de Roma IV estabelecem que as crises paroxísticas de dor abdominal intensa, periumbilical aguda, na linha média da barriga ou difusa, que se prolongam por pelo menos uma hora, apresentam um padrão recorrente, são incapacitantes e interferem nas atividades regulares, podem servir para diagnosticar uma enxaqueca abdominal se pelo menos dois desses episódios ocorrerem ao longo de um período de seis meses. Não se deverão registar sintomas durante as semanas ou meses que decorrerem entre as crises. Os sintomas seguintes têm de estar presentes em pelo menos duas ocasiões: palidez, fotofobia, dor de cabeça, náusea, vómito e anorexia. Por último, não existe outro diagnóstico médico que explique os sintomas. A enxaqueca abdominal é definida, segundo os critérios da International Classification of Headache Disorders III, como tratando-se de cinco ou mais episódios de dor abdominal com uma duração de duas a setenta e duas horas. A dor deve consistir em pelo menos dois dos três critérios seguintes: ser surda ou apenas dolorosa; estar localizada na linha média da barriga, na zona periumbilical ou numa zona mal definida; e ter uma intensidade entre moderada a grave. Palidez, náuseas, vómitos e anorexia são sintomas associados, dos quais o doente deve apresentar pelo menos dois.
Diagnóstico diferencial A enxaqueca abdominal tem de ser distinguida de outras causas de dor abdominal crónica ou recorrente, tais como a síndrome do cólon irritável, doença ulcerosa péptica e doença do refluxo gastroesofágico. Tem de ser igualmente distinguida de causas de dor abdominal aguda, tais como a apendicite, porque um diagnóstico errado pode encaminhar para uma apendicectomia desnecessária.
Tratamento Não existem recomendações definitivas acerca do tratamento. A maioria das opções existentes baseia-se em evidências anedóticas, num número reduzido de estudos realizados com recurso a um número restrito de crianças e uma forte correlação entre, por um lado, enxaquecas abdominais e, por outro, enxaquecas comuns e distúrbios gastrointestinais funcionais. O tratamento pode consistir na gestão do stresse, aconselhamento sobre viagens, repouso, identificação de sinais de alarme e evicção de luzes intensas e de determinados alimentos. Alguns dos fatores desencadeantes, como a luz intensa, noites inquietas, viagens e jejum prolongado, devem provavelmente ser reduzidos ou evitados assim que tiverem sido identificados. Os fatores de stresse emocional provenientes de atividades familiares ou escolares podem ser um gatilho para algumas crianças, por isso, é melhor reduzi-los ou evitá-los. Apesar de não existirem ensaios aleatorizados de biofeedback e aconselhamento, considera-se que estas intervenções possam ser úteis se o stresse emocional for um gatilho. Não existe evidência científica em como a dieta de uma criança tenha um impacto significativo no início das enxaquecas. Num estudo, foi administrado xarope de pizotifeno, um antagonista de serotonina e de histamina, em 14 crianças com enxaqueca abdominal. Quatro meses depois, 70 % dos doentes confirmaram a melhoria dos sintomas, os quais eram visivelmente mais leves e menos frequentes. O xarope de propranolol e ciproeptadina demonstrou aliviar os sintomas numa revisão retrospectiva. O uso de flunarizina demonstrou reduzir a frequência e a duração das crises de enxaqueca abdominal numa outra revisão retrospectiva. Analgésicos, triptanos e medicamentos para as náuseas podem ser úteis durante as crises. Tem sido sugerido que as náuseas, vómitos ou perda de apetite podem beneficiar de sprays nasais ou supositórios. As crises agudas têm sido registadas como resolvidas com acetaminofeno e ibuprofeno. De acordo com um relato de caso, o sumatriptano intranasal aliviou os sintomas em duas crianças. Em casos refratários, o valproato de sódio intravenoso foi registado como sendo capaz de resolver episódios. De acordo com uma série de casos, o tratamento com dihidroergotamina intravenosa preveniu crises de enxaqueca abdominal em cinco doentes pediátricos de um total de seis.
Prognóstico A enxaqueca abdominal pode ter um impacto significativo nas atividades. As crianças podem ter de faltar à escola ou a outras atividades. Em muitos casos, estas consequências têm resolução.
Epidemiologia A enxaqueca abdominal afeta principalmente as crianças, sendo uma causa comum de dor abdominal crónica nesta população. Pode ter uma incidência tão elevada quanto 9 % ou tão baixa quanto 1 % entre as crianças. É uma doença rara em adultos. No entanto, crianças diagnosticadas com enxaqueca abdominal podem ter enxaquecas na idade adulta. A idade média de diagnóstico é de 7 anos. Parece ser ligeiramente mais comum em raparigas.
História Esta doença foi descrita pela primeira vez em 1921 por Buchanan. Foi, outrora, considerada um diagnóstico controverso. No entanto, é atualmente aceite como uma causa comum de dor abdominal crónica em crianças.
Referências