Os bordados de João Cândido são um conjunto de duas peças têxteis produzidas em 1910 pelo marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata. Atualmente, integram o acervo do Museu Municipal Tomé Portes del-Rei, em São João del-Rei, Minas Gerais, sendo considerados importantes bens culturais vinculados à memória histórica e à cultura material brasileira. As obras, executadas sobre toalhas de tecido com técnica de ponto-corrente, destacam-se por sua dimensão simbólica e pelo contexto de sua produção, relacionada ao período de prisão dos marinheiros revoltosos.
História Os bordados foram confeccionados em 1910, possivelmente na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, onde João Cândido esteve preso após a Revolta da Chibata. Segundo registros históricos, as peças foram produzidas durante o período de encarceramento e posteriormente doadas ao militar Antônio Manuel de Souza Guerra, conhecido como “Niquinho Guerra”, integrante do 51o Batalhão de Caçadores de São João del-Rei. Niquinho Guerra teria estabelecido contato com os presos enquanto atuava na guarda dos revoltosos, recebendo de João Cândido os bordados como presente. Posteriormente, as peças foram incorporadas ao acervo do Museu Tomé Portes del-Rei, onde permanecem como testemunhos materiais da Revolta da Chibata e da trajetória de seu principal líder.
Descrição O conjunto é composto por dois bordados:
O Adeus do Marujo Amor de Marujo Ambos foram executados em tecido, possivelmente linho, com bordado em linha nas cores cinza e vermelho, utilizando a técnica de ponto-corrente. As peças apresentam acabamento em renda de abrolhos e franjas. Os bordados encontram-se atualmente emoldurados com moldura de madeira e proteção em vidro, sendo expostos em uma das salas do museu.
O Adeus do Marujo
Esta peça apresenta composição mais complexa, com diversos elementos simbólicos e inscrições textuais. Entre eles destacam-se:
iniciais “JCF” (João Cândido Felisberto); título da obra; a palavra “Liberdade”; a data “XXII de novembro de MCMX” (22 de novembro de 1910); referência a “F. D. Martins”, possivelmente Francisco Dias Martins. A composição iconográfica inclui mãos entrelaçadas, âncora, ramos vegetais e elementos de fardamento naval, sugerindo uma narrativa de despedida, hierarquia e conflito.
Amor de Marujo
O segundo bordado apresenta composição mais simples, porém carregada de simbolismo afetivo, incluindo:
duas pombas sustentando uma faixa com a inscrição “Amôr”; um coração atravessado por uma espada; elementos naturais como flores, borboletas e um beija-flor. A iconografia remete a temas como amor, sofrimento e sensibilidade, contrastando com a imagem tradicional do marinheiro rebelde.
Técnica e estilo Os bordados foram produzidos por meio de técnicas tradicionais de bordado manual, caracterizando-se como arte espontânea de um autor não profissional. Do ponto de vista estilístico, apresentam traços rudimentares e expressivos, com forte carga simbólica e narrativa.
Conservação As peças encontram-se em estado de conservação considerado regular, apresentando manchas decorrentes de umidade e sinais de deterioração provocados por insetos. Intervenções posteriores incluíram costuras para contenção de rasgos e a colocação em molduras, com o objetivo de garantir sua preservação. No ano de 2020 os bordados passaram por um processo de restauração conduzido pelo Laboratório de Conservação e Pesquisa Documental da Universidade Federal de São João del Rei. Entre os danos identificados, o tecido apresentava amarelamento por acidez, possíveis manchas de umidade e furos causados pela ação de traças. Foi feito um processo de desacidificação nas obras, além de reparos para tapar os furos. Os bordados foram colocados posteriormente em novas molduras, visto que as anteriores continham cupins.
Proteção patrimonial Os bordados são tombados em nível municipal pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de São João del-Rei, conforme Decreto no 3112, de 9 de junho de 2005. Não possuem, até o momento, proteção em âmbito estadual ou federal.
Importância Os bordados de João Cândido constituem importante registro material da história social brasileira, articulando arte, memória e política. Além de sua relação direta com a Revolta da Chibata, as peças revelam dimensões subjetivas e humanas de João Cândido, frequentemente ausentes nas narrativas tradicionais sobre o episódio. Sua preservação em São João del-Rei reforça os vínculos entre história local e acontecimentos de alcance nacional. Os bordados foram analisados como fontes históricas em artigo acadêmico escrito pelo historiador e cientista político mineiro José Murilo de Carvalho. Tal artigo daria origem ao nome do livro em que posteriormente foi publicado: a obra Pontos e Bordados: Escritos de História e política, lançado pela Editora UFMG no ano de 1998. No ano de 2021, os bordados foram escolhidos pela equipe curatorial da 34° Bienal Internacional de Arte de São Paulo como um dos "enunciados", objetos simbólicos que pontuariam a linha narrativa da exposição. Os bordados inspiraram a obra O Adeus do Marujo, livro ilustrado desenvolvido pela artista plástica baiana Flávia Bonfim, que utiliza a técnica do bordado sobre fotografias para contar a história de vida de João Cândido. O livro foi publicado no ano de 2022 pela Pallas Editora, tendo sido premiado no Nami Concours, concurso internacional de ilustração para livros realizado na Coréia do Sul. As peças inspiraram a exposição de arte "Amor Cândido Bordado e a Revolução das Linhas e Agulhas", realizada no ano de 2024 no Museu Regional de São João del Rei e que apresentou a obra de bordadeiras e artesãs da região.
Ver também João Cândido Felisberto Revolta da Chibata Museu Municipal Tomé Portes del-Rei Cultura material
Referências
Bibliografia Reis, Roberto Batista (2014). Inventário dos Bordados de João Cândido Felisberto (Relatório). São João del-Rei: Prefeitura Municipal de São João del-Rei . "As toalhas do marinheiro" .